Espaço destinado para analisar e discutir vida e obra de Maria Teresa Horta!
quarta-feira, 16 de maio de 2012
Quotidiano Instável
"Quotidiano Instável", a crônica semanal de Maria Teresa Horta no suplemento "Literatura & Arte" que "A Capital" publicava às quartas-feiras!
UM TRECHO DE "QUOTIDIANO INSTÁVEL":
Surges de súbito no meu silêncio, na minha ausência, no doce aniquilamento onde adormeci de novo.
Recuso que me despertes outra vez... contudo já o sabor dos teus ombros volta aos meus lábios e entonteço neste misto de medo e de prazer onde me detenho, indecisa, sempre que me procuras e digo: não, e te sigo sobre um finíssimo traço de recusas.
Será que te lembras? O mar estava invisível, mas dentro do escuro espesso, salgado, da noite, enquanto me abraçavas, a minha blusa ganhava um brilho imperceptível sob os teus dedos, no frio e na leve tremura da pele arrepiada.
Finjo que não te reconheço, que não te lembro, que não estremeço já. A lâmina ofuscante da tua voz rasga o seu caminho na minha carne.
Hirta, suspendo o gesto natural de todo o corpo para te escutar e me moldar ao macio enovelamento de ser tua, só porque me procuras, distante, quase agressivo, a trazeres todavia nas palavras a memória daquela minha sedenta maneira de contigo me perder totalmente, magnificamente, até à glória completa de esquecer.
O total vazio. A voragem. A total liberdade de existir. [...]
Maria Teresa Horta, in «A Capital», suplemento
DOIS POEMAS
AMOR SEM RAZÃO
Meu amor quem disse
ao pé de ti o medo
ou pôs a ausência daquilo que
faço
se longe de ti impeço o começo
ou junto de ti me ergo e renasço
já nada é razão
quando esta é segredo
ou quando a razão é corpo e desfaz-se
razão do teu sono
por entre os meus dedos
razão do teu hálito
por entre os meus braços
in «Amor Habitado», pág. 31
CLIMA
Neste clima de armas
submersas
de silêncios calados
bocas crespas
de já grandes coragens
e vontades
de já claridade
e já certeza
Neste clima espesso
grosso
enorme
ao tamanho dos olhos - temperatura
à exacta liberdade retomada
uma espécie de grito
e de sutura
Este clima ferida
cerco
incerto
a avolumar na pele cada
dia
este clima punho
Quente
aberto
do brusco despertar
e de rotura
Clima que no homem acontece
e nele se empreende
numa luta
in «Amor Habitado», pág. 71
segunda-feira, 14 de maio de 2012
Um pouco mais de poesia...
Com esse teu ar
de arcanjo negro
... pálido e magro
triste e alheado
ficas por vezes quase etéreo
calado
enquanto eu te olho docemente
Num espanto condenado
quase místico
debruço-me secreta à tua beira
e numa espécie de prece
porque existes
alheado - magro
belo e triste
estou de joelhos
meu amor
e beijo-te
Maria Teresa Horta
"Candelabro" - 1964
Educação Sentimental
"Educação Sentimental" inclui poemas feitos na sala do tribunal que julgou as "três Marias" É "um dos meus livros mais subversivos", afirma a autora.
sexta-feira, 11 de maio de 2012
Um pouco de poesia...
A Voz
Da tua voz
o corpo
o tempo já vencido
os dedos que me
vogam
nos cabelos
e os lábios que me
roçam pela boca
nesta mansa tontura
em nunca tê-los...
Meu amor
que quartos na memória
não ocupamos nós
se não partimos...
Mas porque assim te invento
e já te troco as horas
vou passando dos teus braços
que não sei
para o vácuo em que me deixas
se demoras
nesta mansa certeza que não vens.
Poema sobre a recusa
Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
nem na polpa dos meus dedos
se ter formado o afago
sem termos sido a cidade
nem termos rasgado pedras
sem descobrirmos a cor
nem o interior da erva.
Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
minha raiva de ternura
meu ódio de conhecer-te
minha alegria profunda.
terça-feira, 1 de maio de 2012
Ótimo texto sobre MTH
SEGREDO E DESTINO: MARIA TERESA HORTA DESDE OS ANOS 1960*
Maria Teresa Mascarenhas Horta nasceu em Lisboa em 20 de maio de 1937. Oriunda, pelo lado materno, de uma família da alta aristocracia portuguesa, conta entre os seus antepassados a célebre poetisa Marquesa de Alorna, cuja vida e obra será tema do seu próximo romance. Poeta de formação acadêmica, estudou na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Personagem ativa politicamente, dedicou-se ao cineclubismo como dirigente do ABC Cine-Clube, ao jornalismo e à questão do feminismo, tendo feito parte doMovimento Feminista de Portugal juntamente comMaria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa, parceiras, nos anos 1970, na publicação do polêmico livro Novas Cartas Portuguesas.
Em 1961, fez parte da recolha de livros Poesia 61, da qual fizeram parte ainda Fiama Hasse Pais Brandão (Morfismos), Casimiro de Brito (Canto adolescente), Luiza Neto Jorge (Quarta dimensão) e Gastão Cruz (A morte percutiva). Os citados poetas não formavam um “grupo poético”, mas “uma coincidência literária”, como afirma Gastão Cruz, na altura do lançamento de Rua de Portugal (2002). Dos poetas 61, somente Gastão Cruz era ainda não publicado. Este, sobre a parceira editorial, afirma, já em 2009 – no JL (Jornal de Letras) cujo tema foi MTH –, tendo em vista seu primeiro livro, em um belíssimo texto intitulado merecida e afetivamente Uma poesia nova: “a publicação, em 1960, do livro Espelho inicial, de Maria Teresa Horta, foi um acontecimento de cujos significados e importância não haverá hoje grande noção, curta como é a memória e a informação de muitos dos que à poesia portuguesa algum interesse dedicam”.
Apesar da grande importância que deve ser atribuída ao livro de estreia de Maria Teresa Horta, invoco, para começar os trabalhos literários, o revolucionário poema “Outubro”, publicado na já mencionada plaquete Tatuagem, de Poesia 61:
Estas noites de mar
incrustadas
de luzou estes olhos
de polos
distanciados no nadaEste ódio de chuvaeste dia montanhaEsta arma de boca
ou tempo encontrado
com relógios
na montraEste ardor de palavras
no perfil
das bocaseste grito
que tenho
nas mãos misturadasOu mãos misturadas
que tenho
de outubro
no sabor picante
sentido nas casas
Nestes versos identificamos o que afirma Jorge Fernandes da Silveira, autor de Portugal maio de Poesia 61, livro que versa estrutural, poética e historicamente a coletânea que aparece no título da obra de Silveira: “possuidora de um domínio imagístico invulgar, Maria Teresa Horta constrói uma poesia de difícil leitura. À primeira vista, o leitor sente-se incapaz de coordenar o intenso ritmo de palavras, de imagens sobre imagens, como se fosse uma espécie de música para além dos limites da pauta. Todavia, a poesia não é pura arte do significante; a música pode-nos servir de termo de comparação, mas não nos afasta da tentativa de buscar nexos semânticos que promovam o sentido do texto. Tatuagem é um livro que se insubordina contra a ordem das relações sociais e as formas de opressão na linguagem”. A partir do que nos diz Silveira, observamos um “Outubro” desdobrado em imagens. E assim, ao invés de representar “Outubro” – remissivo ao da revolução de 1917 –, Maria Teresa Horta escolhe o signo “Outubro” e desdobra-o, o que dá origem às alternâncias que movem o poema, pois “Esta arma de boca/ ou tempo encontrado/ com relógios/ na montra/ (...)/ Ou mãos misturadas/ que tenho/ de outubro/ no sabor picante/ sentido nas casas” [grifo meu]. “Ou-tubro” vai e vem dos/nos versos marcados ainda pelo eco significante nas/das palavras: “estas”, “incrustadas”, “luz”, “olhos”, “polos”. E, na ultima estofe, em que se lê “Ou mãos misturadas”, a relação tempo e espaço dá-se, pois a mistura das mãos “que tenho/ de outubro” (tempo) também se misturam “no sabor picante/ sentido nas casas” (espaço).
No mesmo jornal em que Gastão escreve “Uma nova poesia”, Ana Luisa Amaral, no texto “Harmonia e insubordinação”, refere-se à forte componente erótica na poesia de Maria Teresa Horta: “a atenção dada à mulher e ao corpo feminino, ao desejo e à paixão”. Ainda nas palavras de Ana Luisa Amaral, “A própria autora (Maria Teresa Horta), em entrevistas e depoimentos, tem salientado essa dimensão do feminino, ligando-a à acção cívica em prol do feminino e dos direitos das mulheres. Porém, sendo isso verdade, e servindo-se a autora amiudamente de temáticas e de um léxico geralmente associados ao que se considera ser o universo das mulheres, não será demais salientar que a sua atenção se faz a partir de um olhar que, embora se firmando no ser mulher, dele extrapola, alargando-se ao mais amplamente humano”. No poema “Segredo”, publicado no livro Minha senhora de mim, de 1972, observamos a temática erótica feminina em um discurso de uma sexualidade aberta, refletora de um gesto político:
Não contes do meu
vestido
que tiro pela cabeçanem que corro os
cortinados
para uma sombra mais espessaDeixa que feche o
anel
em redor do teu pescoço
com as minhas longas
pernas
e a sombra do meu poçoNão contes do meu
novelo
nem da roca de fiarnem o que faço
com eles
a fim de te ouvir gritar
O “Segredo” de Maria Teresa Horta é um encontro amoroso de um ponto de vista feminino. Ainda que com um lugar de aprendizagem na tradição amorosa portuguesa masculina, se dá no feminino como atuante, como fizera, por exemplo, Florbela Espanca, em “Eu quero amar amar perdidamente”. O “Segredo” da poeta é uma forma de contestação do moralismo que sufocava Portugal, que só dois anos depois, em abril de 1974, ver-se-ia livre do regime salazarista. Nesse espaço secreto, porque ainda silenciado por um regime fascista, Maria Teresa Horta corre “os cortinados” da tradicional casa portuguesa que já se encaminhava para a destruição, pois a mulher lusitana preparava-se para largar o “novelo” e a “roca de fiar” – sintagmas da ordem do feminino domesticado. E ainda: para esta mulher ativa o “anel” que vem ao caso (e não à casa) é o que se coloca ao “redor” do “pescoço” do amado, com as “longas pernas” da amante, não mais, portanto, o de um compromisso institucionalizado pelas leis da igreja, ou seja, a aliança matrimonial, símbolo da união marido e mulher, que não necessariamente são amadores, no sentido barthesiano do termo. Junto com as cortinas caem as “sombras”, deixando a esperada nova condição feminina às claras, “a fim de” “ouvir” gritos de prazer (e porque não de subordinação sexual?) do amante, ser amado.
Em 2006 foi lançada, aqui no Brasil, a antologia Cem poemas [Antologia pessoal]+ 22 inéditos, apresentada por Ida Aves, que afirma: “À voz inaugural de Maria Teresa Horta unem-se assim vozes de outras poetas portuguesas, citando apenas três nomes como Luiza Neto Jorge, sua contemporânea, com obra poética das mais instigantes a ser conhecida também entre nós, Ana Luisa Amaral e Adília Lopes, vozes mais recentes, inquietas e insubmissas, que constituem espaços outros de dizer o mundo a partir da perspectiva de um sujeito mulher que rompe, desvela, subverte ordens, desloca espaços e visões, para escrever uma outra forma de ser ‘senhora de mim’”.
Adília e Ana insubmissas, assim como as já referidas, logo no início deste ensaio, parceiras de Maria Teresa Horta nas Novas cartas portuguesas, cujo belíssimo trecho destaco: “Pensemos o amor no seu jogo através do contentamento: as palavras uma por uma no bordado empolgante dos sentimentos e dos gestos. A mão sobre o papel traça com precisão as ideias nas cartas que, mais do que para o outro, escrevemos para nosso próprio alimento: o doce alimento da ternura, da invenção do passado ou o envenenamento da acusação e da vingança; elas próprias principais elementos da paixão na reconstrução do nosso corpo sempre pronto a ceder à emoção inventada, mas não falsa”. Cito um trecho que, como Maria de Lourdes Pintasilgo defende, no prefácio da edição de 1974 das Novas cartas, que este livro é de autoria de uma voz una, posso dizer que, em alguma medida, foi escrito por Maria Teresa Horta. Afirmo o que afirmo não só pela dica de, mas também, e quase majoritariamente, pela tensão entre escrita e erotismo que encontramos na poeta de “Segredo” – poema no qual, diga-se de passagem, a tensão é-nos apresentada –, pois em “Português”, poema deVozes e olhares do feminino, de 2001: “Se a língua ganha/ a dimensão da escrita”, “a escrita ganha a dimensão do mundo”. Desse modo, nas Novas Cartas, assim como nas que dão origem a estas, segundo mais uma vez Pintasilgo, a escrita é feita para si própria. Mariana Alcoforado, no século XVIII, escreveu cartas ao Marques de Chamily para seu próprio prazer, pois, como afirmaram as três Marias, reconstruindo o corpo da escrita eroticamente, “a mão sobre o papel traça com precisão as ideias nas cartas que, mais do que para o outro, escrevemos para nosso próprio alimento”, como num gesto de (re)“invenção do passado”.
Sozinha, Maria Teresa Horta sempre fizera isso, (re)inventar o passado, e continuaria a fazer, em seu “Destino”, poema de 1997, quando se vê em sessões de quimioterapia para vencer um câncer – como afirma no já referido jornal que a homenageia pela publicação da sua antologia Poesia toda, lançada pela Dom Quixote. Poema que repete a estrofe inicial “O lugar destes sítios/ chama-se destino”, como se fosse um refrão de um poema em que temas como errância “desgraçada”, muito afim à de Camões, ou seja, canônica e tradicional, é uma constante, criando uma “gramática da escrita/ que altera e desalinha/ que altera e desalinha/ a urdidura que fala sem saber o início” (ano e livro). Poema com o qual termino este texto:
O lugar destes sítios
chama-se destino
Com o seu enorme peso
de pedras e de visco
Raramente se escutam as asas
e o vinho
ganha no corpo a morbidez do linho
Mas quem empunha o sabre
do destino?
Quem escuta a sua dor
não desatada?
Quem pensa que a torpeza
de um sonho de adivinho
se iguala à túnica branca
de um anjo que voava?
Este é o silêncio sequer o mais veloz
que se enrosca febril
em sua capa
Um abismo obscuro
que dormia
quando a saudade não tinha a ver com nada
O lugar destes sítios
chama-se destino
Com os olhos tapados e uma espada
embainhada não no desatino
mas antes, sim, mergulhada em lágrimas
Quem diz que é bom
lembrar o que se andou
numa qualquer infância desgraçada?
Não sei se o destino se inventou
se simplesmente trepou
galgando a sua água
Deixa pois que invoque
o meu destino
que é apenas um esvoaçar de asa
Um sinal qualquer
um desatino
uma amargura incerta que desata
Um dragão poisado em cada ombro?
A mão que encaminhou o que é desfeito?
Uma dúvida cansada de quem chega
com uma chaga aberta no seu peito
REFERÊNCIAS
BARRENO, Maria Isabel; HORTA, Maria Teresa; COSTA, Maria Velho. Novas Cartas Portuguesas. Rio de Janeiro: Nórdica, 1974.
HORTA, Maria Teresa. Cem poemas [Antologia pessoal] + 22 inéditos. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006.
SILVEIRA, Jorge Fernandes da. Portugal maio de Poesia 61. Vila da Maia: Imprensa Nacional/ Casa da Moeda, 1986.
Tema Maria Teresa Horta: Palavra(s) de mulher. JL (Jornal de Letras, Artes e Ideias), nº 1004, 25 de março de 2009, p. 12-19.
* Texto de Raquel Menezes, publicado em 9 de fevereiro de 2010.
fonte: http://www.educacaopublica.rj.gov.br/biblioteca/literatura/0097.html
terça-feira, 24 de abril de 2012
Prêmios e Bibliografia Completa
"Maria Teresa Horta foi condecorada com o grau de Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique pelo Presidente da República Portuguesa, Jorge Sampaio, no dia 8 de Março de 2004 (Dia da Mulher). Em 2008, foi distinguida com o “Prémio Paridade: mulheres e homens na comunicação social”, pela Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género. Em 2010 é-lhe conferido o Prémio Máxima Vida Literária, pelo seu livro “Poesia Reunida” . Em 2012 recebeu o prémio D. Dinis - 2011, da Fundação da Casa de Mateus, atribuído, por unanimidade do júri, ao seu romance 'As Luzes de Leonor'.
Poesia:
1960 – Espelho Inicial, edição da autora, Faro.
1961 – Tatuagem, in «Poesia 61», edição dos autores, Faro.
1961 – Cidadelas Submersas, Pedras Brancas, Covilhã.
1962 – Verão Coincidente, Guimarães Editores, Lisboa.
1963 – Amor Habitado, Guimarães Editores, Lisboa.
1964 – Candelabro, Guimarães Editores, Lisboa.
1966 – Jardim de Inverno, Guimarães Editores, Lisboa.
1967 – Cronista não é Recado, Guimarães Editores, Lisboa.
1971 – Minha Senhora de Mim, Publicações Dom Quixote, Lisboa.
1975 – Educação Sentimental, Editorial A Comuna (edição não autorizada), Lisboa.
1976 – Mulheres de Abril, Editorial Caminho, Lisboa.
1982 – Poesia Completa (1960-1982), dois volumes, Litexa, Lisboa.
1983 – Os Anjos, Litexa, Lisboa.
1983 – Os Anjos, álbum com ilustrações de Isabel Lobinho, Litexa, Lisboa.
1984 – Minha Mãe, Meu Amor, Edições Rolim, Lisboa.
1987 – Rosa Sangrenta, Nova Nórdica, Lisboa.
1994 – Antologia Poética, organização de David Mourão Ferreira, Círculo de Leitores, Lisboa.
!998 – Destino, Quetzal, Lisboa.
1999 – Só de Amor, Quetzal, Lisboa.
2003 – Antologia Pessoal – 100 Poemas, Gótica, Lisboa.
2006 – Inquietude, Quasi, V. N. Famalicão.
2006 – Les Sorcières – Feiticeiras, Actes-Sud, Arles, França (edição bilingue, com tradução de Catherine Dumas).
2007 – Cem Poemas + 21 inéditos (Antologia Pessoal), editora 7Letras, Rio de Janeiro, Brasil.
2007 – Palavras Secretas (Antologia), editora Escritura, Fortaleza, Brasil.
2009 – Poemas do Brasil, Editora Brasiliense, S. Paulo, Brasil.
2009 – Poesia Reunida (1960-2006), Publicações Dom Quixote - Leya, Lisboa.
2012 – As Palavras do Corpo (Antologia de poesia erótica), Publicações Dom Quixote – Leya, Lisboa.
Ficção:
1 - Romances e novelas:
1970 – Ambas as Mãos sobre o Corpo, Europa-América, Lisboa.
1972 – Novas Cartas Portuguesas, com Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa, Estúdios Cor, Lisboa. Reedições por Editorial Futura, Lisboa, 1974; Moraes Editores – com prefácio de Maria de Lurdes Pintasilgo –, Lisboa, 1980; Publicações Dom Quixote, 1998; e, novamente, Publicações Dom Quixote, 2010, em edição anotada, organizada por Ana Luísa Amaral.
1974 – Ana, Editorial Futura, Lisboa.
1982 - Ana, Éditions Des Femmes, Paris, França (edição bilingue).
1984 – Ema, Edições Rolim, Lisboa.
1985 – Cristina, Edições Rolim, Lisboa.
1994 – A Paixão segundo Constança H., Bertrand Editora, Lisboa
1995 - A Paixão segundo Constança H., Círculo dos Leitores, Lisboa.
2011 – As Luzes de Leonor, Publicações Dom Quixote – Leya, Lisboa.
2 - Contos (colectâneas e revistas):
1984 – Transfert, in «Feminino Plural», Bertrand, Lisboa.
1985 – Com a Mão Firme e Doce, in «Fantástico no Feminino», Edições Rolim.
1985 – Lídia, in «Contos», Editorial Caminho, Lisboa.
1999 – Azul-Cobalto, in «Doze Histórias de Mulheres», Publicações Dom Quixote, Lisboa.
2005 - Mónica, in “Intimidades”, Publicações D. Quixote, Lisboa.
2005 – Leonor e Teresa, in “Meia Libra”, Viana do Castelo.
2006 – Laura e Juliana, in “Meia Libra”, Viana do Castelo.
“Minha Loura”, in «Diário de Notícias» – Lisboa, 2003.
2007 – A Princesa Espanhola, in «Meia Libra», Viana do Castelo.
2007 – Tinta da China, in «Meia Libra», Viana do Castelo.
2008 – Eclipse, in «O Prazer da Leitura», edição conjunta da FNAC e Teorema comemorativa do Dia Mundial do Livro.
Teatro:
1961 – O Delator, in «Novíssimo Teatro Português» (colectânea), Ao Sol, Lisboa.
Ensaio:
1975 - Aborto - Direito ao nosso Corpo, inquérito conduzido com Célia Metrass e Helena Sá Medeiros, Editorial Futura, Lisboa."
Fonte:
https://www.facebook.com/pages/Maria-Teresa-Horta-P%C3%A1gina-Oficial/163002943815613
sexta-feira, 13 de abril de 2012
Entrevista
Interessante entrevista com Maria Teresa Horta:
Fonte: http://ipsilon.publico.pt/livros/entrevista.aspx?id=302028
"A luz incandescente de Maria Teresa Horta
14.03.2012
Por: Helena Vasconcelos
Por: Helena Vasconcelos
Diante da sua nova antologia de poesia erótica, As Palavras do Corpo, Maria Teresa Horta recapitula uma vida inteira de risco e de exposição, de leitura e de escrita: “Para mim, escrever é voo e sobressalto, incêndio e desmesura”
Maria Teresa Horta, poeta, ficcionista, activista, feminista, é uma das mais importantes figuras da literatura portuguesa, conjugando na perfeição a luta feroz pelas causas que defende e o fulgor da escrita. Ao longo de uma vida apaixonante e apaixonada, Maria Teresa Horta conheceu o peso da ditadura e foi penalizada por ser mulher, livre e escritora. Com um vasto e diferenciado corpus literário que inclui poesia e prosa, a autora acaba de publicar uma antologia de poesia erótica intitulada As Palavras do Corpo (Dom Quixote), depois de ter ganho o Prémio D. Dinis - Casa de Mateus 2011 pelo romance histórico As Luzes de Leonor (Dom Quixote).
Fale-me da sua infância.A minha infância foi arrebatada. Dividida entre a beleza da minha mãe e a inteligência do meu pai; entre o quarto da minha mãe e o escritório do meu pai. Protegida, defendida, compreendida por uma espantosa avó paterna que vivia connosco, a primeira mulher, aliás, que frequentou o liceu em Portugal. Sufragista, frequentava as reuniões feministas da histórica "casa-jardim", onde eu, menina pequena, ia com ela.
A minha infância foi a fundura do poço e o golpe de asa. O conhecimento do anjo e a queda. Uma espécie de história de fadas, com uma deslumbrante mãe abandonatória, um pai distante, gelado e inflexível, e uma madrasta como a da Branca de Neve, que me deu a comer várias maçãs envenenadas. A minha infância foi o começo exaltado e fulgurante da leitura e o início maravilhado do prazer da escrita; com o escritório do meu pai como paraíso proibido, onde me escondia, me perdia a olhar as lombadas dos livros nas prateleiras das estantes a que não chegava. Livros de que a minha avó me lia pedaços, a meu pedido, reclamando: "Mas não é leitura para a tua idade, não vais perceber nada..." E eu acabava sempre por lhe garantir no final: "Não interessa se não percebi, é tão bonito!"
Li, algures, que a Maria Teresa aprendeu a ler sozinha...Digamos que sim, embora tivesse a ajuda da minha avó, que com uma imensa paciência sempre acedia quando lhe rogava para me ler esta ou aquela palavra, e repetir o nome de cada uma das letras que as compunham. Nessa altura as crianças só iam para a escola aos sete anos; ora, na altura em que isto aconteceu, eu deveria ter por volta dos quatro. Quando, pasmado, o mau pai se apercebeu de que melhor ou pior eu sabia ler, contratou uma professora para pôr ordem naquele meu saber bastante caótico e para me ensinar a escrever. Aí conheci outra das grandes paixões da minha vida: a escrita. E tudo mudou, tomou um rumo diferente e amotinado.
Então não era uma menina "bem", de linhagem aristocrática, numa Lisboa que fora capital de um Império mas que era, na altura, quase provinciana?Nunca fui uma menina "bem", pelo contrário. Desde os cinco, seis anos, as amigas que eu escolhia, à revelia dos meus pais, eram rapariguinhas da minha idade ou um pouco mais velhas, que moravam em barracas de madeira junto de uma ribeira, nos fundos de uma pequena mata, para além de um muro baixo que às escondidas todos os dias saltávamos, na parte de trás do jardim da casa de Benfica onde morávamos. A primeira aprendizagem do conhecimento da realidade, fi-la em sua companhia, pois elas sabiam da vida aquilo que eu nem sonhava, pelo avesso mesmo do meu imaginário de menina protegida, defendida, já a ser programada para o papel de passividade, de mulher-sombra, de mulher-sopro, de mulher-nada; aniquilamento exigido às mulheres das classes privilegiadas de um Portugal fascista, triste e medíocre. Desde logo, porém, a minha família se apercebeu ter em mãos um grave problema: fazer-me aceitar essa "lavagem ao cérebro", essa programação de feminização de classe; havia a minha desobediência selvagem.
Foi nessa altura que começou a sentir-se "diferente", rebelde?Comecei por perceber que podia ser considerada diferente ao ouvir várias vezes o meu pai dizer à minha mãe: "Esta rapariga é estranha..." E a minha mãe a emendar: "Não é estranha, é diferente...". A palavra rebelde só apareceu na adolescência, de novo pela boca do meu pai, que um dia me anunciou, deveria eu ter perto de 15 anos: "Já me bastou a tua mãe! Não admito mais mulheres rebeldes na minha casa."
Como era a sua família?As minhas famílias... Na realidade tive mais do que uma, e sempre as senti, de um modo ou de outro, como sendo ameaçadoras. Os meus pais divorciaram-se tinha eu nove anos, ficando então com as minhas duas irmãs na companhia do nosso pai; mas como na mesma altura a minha avó morreu (até hoje, para mim, uma perda irreparável), acabámos por ir (na companhia do pai...) para junto do nosso avô materno, com quem passámos perto de um ano. Em seguida, o nosso pai alugou uma casa e voltou a casar; a nossa mãe, que entretanto fizera o mesmo, pediu a guarda de nós três, acabando por ser eu, com 11 anos, a ir viver com ela e o meu primeiro padrasto. É uma história comprida que, aliás, não acaba aqui.
A Faculdade de Letras era o destino "normal" das meninas de uma certa burguesia. Nessa altura da sua vida, quais foram as suas maiores influências?As minhas maiores influências sempre foram e continuam as ser os livros; o pensamento e as palavras, a criatividade, as escritoras e os escritores que fui conhecendo ao longo do tempo. Lembro-me, como se fosse hoje, do efeito exaltante e exultante que teve em mim Le Deuxième Sexe, de Simone de Beauvoir, quando aos 15 anos o li às escondidas, com um dicionário de francês ao lado. Posso dizer, sem exagero, que esta obra mudou a minha vida. O que até então apenas germinava de forma confusa, à medida que lia, ia ficando em mim cada vez mais claro. Muitos anos mais tarde, a leitura da obra de Marguerite Duras levou-me a redescobrir a minha ficção. Conhecê-la, entrevistá-la para a revista Mulheres, de que era chefe de redacção, conviver com ela pessoalmente durante os dias que então passou em Lisboa, fez-me entender, também, que a vida de quem escreve pode ser assumida enquanto vertigem. Quer dizer, entre a queda e a ascese, a perda e o sublime. Foi deste modo que Duras escolheu viver e morrer da sua própria escrita.
Lembra-se quando começou a sua luta política?Teria perto dos 15 anos, mas parecia mais velha, era uma rapariga ensimesmada e tímida. Um dia, à saída do liceu Filipa de Lencastre, fui abordada por um rapaz muito bonito, que em vez de querer ajudar-me a transportar os livros e os cadernos, como na altura faziam os que nos esperavam em grupos diante do liceu, seguiu-me em silêncio, só se me dirigindo quando, sobressaltada e imprudente, enveredei pelo labirinto de pequenas e solitárias ruas do Bairro Social do Arco do Cego. Dizendo-me num fio de voz e olhos fugidios: "Informaram-nos que está disposta a trabalhar connosco. Distribua estes folhetos, e cuide em não ser apanhada". Depois de me ter dado o maço de papéis que tirara do próprio bolso, e ignorando a minha mudez estupefacta, afastou-se depressa, num passo largo, altivo. E eu fiquei ali, atordoada, de respiração suspensa, até o ver desaparecer numa esquina, sem se virar para trás uma única vez.
Percebeu o que lhe estava a acontecer?Não, não entendi nada e ainda hoje estou certa ter havido um engano, um erro de contacto. Mas, mal li um dos papéis que me tinham sido entregues, percebi que se tratava de um daqueles panfletos revolucionários contra os quais tanto ouvia bramar em casa, pois o meu padrasto, que ocupava o cargo de director do então Instituto de Assistência aos Inválidos, era um bom padrasto mas um fascista convicto e assumido. Disfarcei os folhetos o melhor que pude até entrar no meu quarto onde, a salvo, os escondi no fundo de uma gaveta. Naquela noite não dormi nada, sem saber como haveria de distribuir os papéis clandestinos. Sentia-me, simultaneamente, cheia de medo e entusiasmada, o coração sobressaltado no peito.
E distribuiu esses panfletos?Claro! Distribuí-os nos prédios da Avenida de Roma, da Praça do Areeiro, da Praça de Londres. E o método era sempre o mesmo: naqueles em que não havia porteiro, tocava para o último andar e subia, pé ante pé, até ao primeiro andar, onde, caso não escutasse barulho, fazia deslizar os folhetos por baixo das portas, descendo em seguida a correr até chegar à rua. Depois de os ter distribuído todos, ficava à espera que aquele rapaz pálido e triste, pálido e magro, cabelos negros e olhos azul-cobalto, mistura perfeita de Tristão e de Orfeu, com quem sonhava noite após noite até de madrugada, me tornasse a contactar, o que nunca mais aconteceu.
E em seguida?Em seguida veio o cineclubismo, arrastado pelo cinema que, desde menina, tanto me fascina; continuo absolutamente apaixonada.
Esteve à frente de um cineclube. Como foi essa sua experiência, ainda na ditadura?Foi empolgante, foi luta e criatividade, foi entusiasmante.
Quando cheguei ao ABC Cineclube tinha menos de 18 anos, idade mínima nessa altura requerida em Portugal para se poder ser sócio de um cineclube. Abriu-se então um mundo novo diante dos meus olhos. Saía das acesas discussões, nas quais participava sempre, reforçada pelas posições que defendia. Na altura, os cineclubes eram centros de luta e resistência ao fascismo, foi no ABC que eu me tornei na mulher política de esquerda que continuo a ser hoje. Também fiz grandes amigos que mantenho até este momento, como o Eduardo Serra, o Manuel Neves, o Henrique Espírito Santo. Orgulho-me, portanto, de ser a primeira mulher dirigente do movimento cineclubista português. O que na altura enfureceu particularmente o Secretário Nacional da Informação Moreira Baptista, que em jeito de raiva mal contida, lamentou: "Pobre país este, em que as mulheres já são dirigentes de cineclubes!".
Como se sentia uma jovem bela e inteligente no ambiente jornalístico da altura, essencialmente masculino? Era "protegida", adulada, hostilizada ou tratada como uma igual?Nunca fui protegida em lugar algum, neste caso em jornal nenhum. Senti-me, isso sim, marginalizada, olhada ora com condescendência ora com desconfiança. Não nos podemos esquecer que, mesmo já em 1968, quando o jornal A Capital começou a ser publicado, as poucas jornalistas contratadas pelo seu director Norberto Lopes e pelo subdirector Mário Neves, entre as quais eu me incluía, não tinham lugar na redacção. As secretárias onde trabalhávamos encontravam-se numa outra divisão. E quando perguntei ao chefe de redacção Maurício de Oliveira o motivo desses afastamento, dessa discriminação, ele explicou-me que os jornalistas homens falavam mal, no sentido de usarem muitos palavrões, e isso iria ofender as jornalistas presentes. E nada do que eu disse refutando esse argumento o convenceu do contrário.
Ouvi-a contar que a sua mãe sabia quão rebelde era a Teresa e que aconselhava a que não a proibissem de nada, uma vez que a Teresa tinha logo o ímpeto de fazer o "proibido". Pode dar exemplos?Posso dar-lhe como exemplo o que fez a minha mãe tentar convencer-me, através da habilidade, a fazer aquilo que ela pretendia de mim, em vez de utilizar a proibição pura e simples. Devia ter dois anos, era Verão e estávamos a caminho de casa vindas da praia ali a dois passos, eu ia a saltitar descalça, adorando sentir a brasa do calor na planta dos pés nus. Foi quando a minha mãe me estendeu as sandálias azuis com tiras de pele macia e me mandou calçá-las. Olhei-a nos seus grandes olhos azuis inundados de luz e limitei-me a abanar a cabeça, continuando ora no bico dos pés, ora numa corrida curta que acabava rodopiando num salto. Implacável, ela repetiu a ordem e eu a desobedecer-lhe; furiosa tentou agarrar-me por um braço, mas eu desenvencilhei-me dos seus dedos macios e fugi com ela no meu encalço, e deste modo fomos até casa onde entrei como uma flecha pela porta, que a minha avó nos deixara entreaberta. E assim correndo atravessámos corredor, quartos e salas de ponta a ponta, eu a escapar-lhe sem olhar para trás, magrinha e ágil, e a minha mãe a perseguir-me com o seu canto de sereia zangada. Até que chegou o momento em que me vi encurralada, entre ela a aproximar-se veloz e a parede branca e lisa à minha frente; então, para seu grande espanto e temor, de pura raiva desobediente, comecei a trepar como um pequeno animal, rastejando, a querer escapar para chegar ao cimo. Ma, entretanto ouvi-a parar, e imobilizei-me, também, a sentir-lhe o cheiro quente e perfumado do seu corpo, a sobrepor-se ao cheiro da cal da parede, e ao odor a sal do mar dos meus braços. Até que a ouvi dizer quase em surdina:
- Desce daí Teresinha, como já estamos em casa não precisas mais de calçar as sandálias.
A sua mãe tem uma grande importância na sua vida.Na minha vida e na minha criatividade, pois ela é um dos seus mais importantes veios, personagem-actriz da vida e da escrita: minha mãe, e mãe-de-água da minha poesia. Figura idealizada e musa, atravessa toda a minha obra, cintilando de luz irisada no meu livro de poesia Minha Mãe Meu Amor.
Quando é que a Maria Teresa começou a escrever poesia?Na minha adolescência, por volta dos 14 anos. Leitora voraz, lia poesia como se quisesse fusionar-me nela. Lembro-me de ler assim Camões, Antero de Quental, António Nobre, Florbela. Cesário Verde foi a leitura obsessiva dos meus 14 anos. Logo depois vieram Camilo Pessanha, Mário de Sá-Carneiro...
De que forma "vive" e escreve poesia e prosa?Com um intenso prazer que o corpo compartilha. Eu sou a minha poesia, ela inventa-me à medida que eu a crio, a vivo e me vivo através dela. Para mim, escrever é voo e sobressalto, incêndio e desmesura. Mas não menos busca e rigor, trabalho de linguagem, no desejo de ir mais longe na busca da correnteza do texto, do cerne do imaginário.
Para si há diferenças entre escrever poesia e prosa?Há diferenças, claro, a prosa requer uma disciplina e uma perseverança que a poesia dispensa, embora, quando escrevo ficção, a poetisa que sou esteja sempre presente, ousando o indizível, demorando o impensável, despertando a beleza, abrindo trilhos, descobrindo atalhos de sombras e luzeiros; no começo de tudo, a atadura das águas. Digamos que ela desperta a cintilação no que está a ser contado pela romancista, coloca luz na sua-minha escuridade, faz voar o seu-meu imaginário. E dizer isto acorda em mim uma súbita e dilacerante saudade, dos últimos anos da escrita do meu romance As Luzes de Leonor.
Como chegou a esse vulto extraordinário que foi a Marquesa de Alorna?Leonor de Almeida, Marquesa de Alorna, é minha quinta avó por parte da minha mãe, que me falou dela era eu muito menina ainda, dando-me a ver um livro que nunca saía de cima da pequena mesa da sua salinha particular, um volume encadernado, com o título A Marquesa D'Alorna, do Marquês D'Ávila e Bolama, contendo várias reproduções, entre as quais um retrato de Leonor pintado na Áustria. Como na biblioteca do meu pai não havia a presença de uma única escritora, esta minha belíssima avó poetisa apareceu-me como uma promessa, o garante da criatividade feminina. Despertando em mim, claro, a maior curiosidade, que se mantém insaciada.
Como conviveu com ela? E diga, por favor, se acha que Leonor de Almeida era "subversiva", como a própria Maria Teresa?Ao longo dos 13 anos e meio da investigação e da escrita de As Luzes de Leonor, a nossa convivência constante foi empolgante, desafiadora e por vezes até perigosa porque fusional: eu procurava-a, perseguia-a, ia no seu encalço, lia os seus poemas, as suas cartas, os seus diários e cadernos. Escutava as suas vozes. Ia em busca das suas fundações e raízes que, afinal, são igualmente as minhas. E se algumas vezes, diante de atitudes, decisões e afirmações suas, me zanguei com ela, acabava sempre por entendê-la ao colocá-la no contexto da época em que viveu. Hoje penso que Leonor de Almeida foi, na realidade, uma mulher muito "subversiva" como diz. Por isso continuamos a vê-la como uma tempestade de luz. Certamente nunca conseguirei tanto.
Acabou de publicar uma antologia de poesia erótica, As Palavras do Corpo. O que é para si o sexo na poesia?Tem a ver com liberdade revolucionária, em termos sociais e políticos, sim, de mudança de mentalidades. Tem a ver com a escrita e também com o corpo, o meu corpo e o corpo do outro/desejado, mas também com o corpo poético. Tem a ver com o corpo feminino das palavras, com o corpo dos meus versos. Mas, sobretudo, tem a ver com sexualidade-prazer e deleite, a que as mulheres e os homens têm direito, livremente assumido, desejo e gozo. Repito: tem a ver com liberdade-livre.
Foi essa luta pela mudança de mentalidades, pela liberdade, que a levou a escrever, com a Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa, as Novas Cartas Portuguesas?Antes disso, e com esse mesmo espírito, escrevi Minha Senhora De Mim. O livro foi apreendido pela PIDE e a Snu Abecassis chamada ao secretário nacional da Informação, Moreira Baptista, que a ameaçou de lhe fechar a editora caso me voltasse a publicar. "Seja que livro for?", indagou ela admirada, e ele explicou com uma metáfora elucidativa: "Se o livro se chamar A História Da Carochinha e estiver assinado pela Maria Teresa Horta, eu fecho-lhe a casa". Por essa altura, a minha vida já tinha virado dos pés à cabeça: fui ameaçada e espancada uma noite, na rua, por três homens que, enquanto me batiam, iam dizendo: "isto é para aprenderes a não escrever como escreves". Havia telefonemas anónimos, cartas e bilhetes não assinados, insultos, convites canalhas, insinuações obscenas.
Com a publicação de Minha Senhora de Mim - e culminando no processo intentado contra a publicação deNovas Cartas Portuguesas - a Maria Teresa foi perseguida pela polícia política e vilipendiada por certas facções. Como conviveu com esse pesadelo?Foi bastante difícil e mesmo assustador, mas nem por um só momento me arrependi de ter escrito e publicadoMinha Senhora de Mim, nem de ter participado no fascinante e empolgante projecto literário Novas Cartas Portuguesas. Para mim, escrever é entrega e exposição. Aliás, escrever foi e será sempre risco."
Maria Teresa Horta, poeta, ficcionista, activista, feminista, é uma das mais importantes figuras da literatura portuguesa, conjugando na perfeição a luta feroz pelas causas que defende e o fulgor da escrita. Ao longo de uma vida apaixonante e apaixonada, Maria Teresa Horta conheceu o peso da ditadura e foi penalizada por ser mulher, livre e escritora. Com um vasto e diferenciado corpus literário que inclui poesia e prosa, a autora acaba de publicar uma antologia de poesia erótica intitulada As Palavras do Corpo (Dom Quixote), depois de ter ganho o Prémio D. Dinis - Casa de Mateus 2011 pelo romance histórico As Luzes de Leonor (Dom Quixote).
Fale-me da sua infância.A minha infância foi arrebatada. Dividida entre a beleza da minha mãe e a inteligência do meu pai; entre o quarto da minha mãe e o escritório do meu pai. Protegida, defendida, compreendida por uma espantosa avó paterna que vivia connosco, a primeira mulher, aliás, que frequentou o liceu em Portugal. Sufragista, frequentava as reuniões feministas da histórica "casa-jardim", onde eu, menina pequena, ia com ela.
A minha infância foi a fundura do poço e o golpe de asa. O conhecimento do anjo e a queda. Uma espécie de história de fadas, com uma deslumbrante mãe abandonatória, um pai distante, gelado e inflexível, e uma madrasta como a da Branca de Neve, que me deu a comer várias maçãs envenenadas. A minha infância foi o começo exaltado e fulgurante da leitura e o início maravilhado do prazer da escrita; com o escritório do meu pai como paraíso proibido, onde me escondia, me perdia a olhar as lombadas dos livros nas prateleiras das estantes a que não chegava. Livros de que a minha avó me lia pedaços, a meu pedido, reclamando: "Mas não é leitura para a tua idade, não vais perceber nada..." E eu acabava sempre por lhe garantir no final: "Não interessa se não percebi, é tão bonito!"
Li, algures, que a Maria Teresa aprendeu a ler sozinha...Digamos que sim, embora tivesse a ajuda da minha avó, que com uma imensa paciência sempre acedia quando lhe rogava para me ler esta ou aquela palavra, e repetir o nome de cada uma das letras que as compunham. Nessa altura as crianças só iam para a escola aos sete anos; ora, na altura em que isto aconteceu, eu deveria ter por volta dos quatro. Quando, pasmado, o mau pai se apercebeu de que melhor ou pior eu sabia ler, contratou uma professora para pôr ordem naquele meu saber bastante caótico e para me ensinar a escrever. Aí conheci outra das grandes paixões da minha vida: a escrita. E tudo mudou, tomou um rumo diferente e amotinado.
Então não era uma menina "bem", de linhagem aristocrática, numa Lisboa que fora capital de um Império mas que era, na altura, quase provinciana?Nunca fui uma menina "bem", pelo contrário. Desde os cinco, seis anos, as amigas que eu escolhia, à revelia dos meus pais, eram rapariguinhas da minha idade ou um pouco mais velhas, que moravam em barracas de madeira junto de uma ribeira, nos fundos de uma pequena mata, para além de um muro baixo que às escondidas todos os dias saltávamos, na parte de trás do jardim da casa de Benfica onde morávamos. A primeira aprendizagem do conhecimento da realidade, fi-la em sua companhia, pois elas sabiam da vida aquilo que eu nem sonhava, pelo avesso mesmo do meu imaginário de menina protegida, defendida, já a ser programada para o papel de passividade, de mulher-sombra, de mulher-sopro, de mulher-nada; aniquilamento exigido às mulheres das classes privilegiadas de um Portugal fascista, triste e medíocre. Desde logo, porém, a minha família se apercebeu ter em mãos um grave problema: fazer-me aceitar essa "lavagem ao cérebro", essa programação de feminização de classe; havia a minha desobediência selvagem.
Foi nessa altura que começou a sentir-se "diferente", rebelde?Comecei por perceber que podia ser considerada diferente ao ouvir várias vezes o meu pai dizer à minha mãe: "Esta rapariga é estranha..." E a minha mãe a emendar: "Não é estranha, é diferente...". A palavra rebelde só apareceu na adolescência, de novo pela boca do meu pai, que um dia me anunciou, deveria eu ter perto de 15 anos: "Já me bastou a tua mãe! Não admito mais mulheres rebeldes na minha casa."
Como era a sua família?As minhas famílias... Na realidade tive mais do que uma, e sempre as senti, de um modo ou de outro, como sendo ameaçadoras. Os meus pais divorciaram-se tinha eu nove anos, ficando então com as minhas duas irmãs na companhia do nosso pai; mas como na mesma altura a minha avó morreu (até hoje, para mim, uma perda irreparável), acabámos por ir (na companhia do pai...) para junto do nosso avô materno, com quem passámos perto de um ano. Em seguida, o nosso pai alugou uma casa e voltou a casar; a nossa mãe, que entretanto fizera o mesmo, pediu a guarda de nós três, acabando por ser eu, com 11 anos, a ir viver com ela e o meu primeiro padrasto. É uma história comprida que, aliás, não acaba aqui.
A Faculdade de Letras era o destino "normal" das meninas de uma certa burguesia. Nessa altura da sua vida, quais foram as suas maiores influências?As minhas maiores influências sempre foram e continuam as ser os livros; o pensamento e as palavras, a criatividade, as escritoras e os escritores que fui conhecendo ao longo do tempo. Lembro-me, como se fosse hoje, do efeito exaltante e exultante que teve em mim Le Deuxième Sexe, de Simone de Beauvoir, quando aos 15 anos o li às escondidas, com um dicionário de francês ao lado. Posso dizer, sem exagero, que esta obra mudou a minha vida. O que até então apenas germinava de forma confusa, à medida que lia, ia ficando em mim cada vez mais claro. Muitos anos mais tarde, a leitura da obra de Marguerite Duras levou-me a redescobrir a minha ficção. Conhecê-la, entrevistá-la para a revista Mulheres, de que era chefe de redacção, conviver com ela pessoalmente durante os dias que então passou em Lisboa, fez-me entender, também, que a vida de quem escreve pode ser assumida enquanto vertigem. Quer dizer, entre a queda e a ascese, a perda e o sublime. Foi deste modo que Duras escolheu viver e morrer da sua própria escrita.
Lembra-se quando começou a sua luta política?Teria perto dos 15 anos, mas parecia mais velha, era uma rapariga ensimesmada e tímida. Um dia, à saída do liceu Filipa de Lencastre, fui abordada por um rapaz muito bonito, que em vez de querer ajudar-me a transportar os livros e os cadernos, como na altura faziam os que nos esperavam em grupos diante do liceu, seguiu-me em silêncio, só se me dirigindo quando, sobressaltada e imprudente, enveredei pelo labirinto de pequenas e solitárias ruas do Bairro Social do Arco do Cego. Dizendo-me num fio de voz e olhos fugidios: "Informaram-nos que está disposta a trabalhar connosco. Distribua estes folhetos, e cuide em não ser apanhada". Depois de me ter dado o maço de papéis que tirara do próprio bolso, e ignorando a minha mudez estupefacta, afastou-se depressa, num passo largo, altivo. E eu fiquei ali, atordoada, de respiração suspensa, até o ver desaparecer numa esquina, sem se virar para trás uma única vez.
Percebeu o que lhe estava a acontecer?Não, não entendi nada e ainda hoje estou certa ter havido um engano, um erro de contacto. Mas, mal li um dos papéis que me tinham sido entregues, percebi que se tratava de um daqueles panfletos revolucionários contra os quais tanto ouvia bramar em casa, pois o meu padrasto, que ocupava o cargo de director do então Instituto de Assistência aos Inválidos, era um bom padrasto mas um fascista convicto e assumido. Disfarcei os folhetos o melhor que pude até entrar no meu quarto onde, a salvo, os escondi no fundo de uma gaveta. Naquela noite não dormi nada, sem saber como haveria de distribuir os papéis clandestinos. Sentia-me, simultaneamente, cheia de medo e entusiasmada, o coração sobressaltado no peito.
E distribuiu esses panfletos?Claro! Distribuí-os nos prédios da Avenida de Roma, da Praça do Areeiro, da Praça de Londres. E o método era sempre o mesmo: naqueles em que não havia porteiro, tocava para o último andar e subia, pé ante pé, até ao primeiro andar, onde, caso não escutasse barulho, fazia deslizar os folhetos por baixo das portas, descendo em seguida a correr até chegar à rua. Depois de os ter distribuído todos, ficava à espera que aquele rapaz pálido e triste, pálido e magro, cabelos negros e olhos azul-cobalto, mistura perfeita de Tristão e de Orfeu, com quem sonhava noite após noite até de madrugada, me tornasse a contactar, o que nunca mais aconteceu.
E em seguida?Em seguida veio o cineclubismo, arrastado pelo cinema que, desde menina, tanto me fascina; continuo absolutamente apaixonada.
Esteve à frente de um cineclube. Como foi essa sua experiência, ainda na ditadura?Foi empolgante, foi luta e criatividade, foi entusiasmante.
Quando cheguei ao ABC Cineclube tinha menos de 18 anos, idade mínima nessa altura requerida em Portugal para se poder ser sócio de um cineclube. Abriu-se então um mundo novo diante dos meus olhos. Saía das acesas discussões, nas quais participava sempre, reforçada pelas posições que defendia. Na altura, os cineclubes eram centros de luta e resistência ao fascismo, foi no ABC que eu me tornei na mulher política de esquerda que continuo a ser hoje. Também fiz grandes amigos que mantenho até este momento, como o Eduardo Serra, o Manuel Neves, o Henrique Espírito Santo. Orgulho-me, portanto, de ser a primeira mulher dirigente do movimento cineclubista português. O que na altura enfureceu particularmente o Secretário Nacional da Informação Moreira Baptista, que em jeito de raiva mal contida, lamentou: "Pobre país este, em que as mulheres já são dirigentes de cineclubes!".
Como se sentia uma jovem bela e inteligente no ambiente jornalístico da altura, essencialmente masculino? Era "protegida", adulada, hostilizada ou tratada como uma igual?Nunca fui protegida em lugar algum, neste caso em jornal nenhum. Senti-me, isso sim, marginalizada, olhada ora com condescendência ora com desconfiança. Não nos podemos esquecer que, mesmo já em 1968, quando o jornal A Capital começou a ser publicado, as poucas jornalistas contratadas pelo seu director Norberto Lopes e pelo subdirector Mário Neves, entre as quais eu me incluía, não tinham lugar na redacção. As secretárias onde trabalhávamos encontravam-se numa outra divisão. E quando perguntei ao chefe de redacção Maurício de Oliveira o motivo desses afastamento, dessa discriminação, ele explicou-me que os jornalistas homens falavam mal, no sentido de usarem muitos palavrões, e isso iria ofender as jornalistas presentes. E nada do que eu disse refutando esse argumento o convenceu do contrário.
Ouvi-a contar que a sua mãe sabia quão rebelde era a Teresa e que aconselhava a que não a proibissem de nada, uma vez que a Teresa tinha logo o ímpeto de fazer o "proibido". Pode dar exemplos?Posso dar-lhe como exemplo o que fez a minha mãe tentar convencer-me, através da habilidade, a fazer aquilo que ela pretendia de mim, em vez de utilizar a proibição pura e simples. Devia ter dois anos, era Verão e estávamos a caminho de casa vindas da praia ali a dois passos, eu ia a saltitar descalça, adorando sentir a brasa do calor na planta dos pés nus. Foi quando a minha mãe me estendeu as sandálias azuis com tiras de pele macia e me mandou calçá-las. Olhei-a nos seus grandes olhos azuis inundados de luz e limitei-me a abanar a cabeça, continuando ora no bico dos pés, ora numa corrida curta que acabava rodopiando num salto. Implacável, ela repetiu a ordem e eu a desobedecer-lhe; furiosa tentou agarrar-me por um braço, mas eu desenvencilhei-me dos seus dedos macios e fugi com ela no meu encalço, e deste modo fomos até casa onde entrei como uma flecha pela porta, que a minha avó nos deixara entreaberta. E assim correndo atravessámos corredor, quartos e salas de ponta a ponta, eu a escapar-lhe sem olhar para trás, magrinha e ágil, e a minha mãe a perseguir-me com o seu canto de sereia zangada. Até que chegou o momento em que me vi encurralada, entre ela a aproximar-se veloz e a parede branca e lisa à minha frente; então, para seu grande espanto e temor, de pura raiva desobediente, comecei a trepar como um pequeno animal, rastejando, a querer escapar para chegar ao cimo. Ma, entretanto ouvi-a parar, e imobilizei-me, também, a sentir-lhe o cheiro quente e perfumado do seu corpo, a sobrepor-se ao cheiro da cal da parede, e ao odor a sal do mar dos meus braços. Até que a ouvi dizer quase em surdina:
- Desce daí Teresinha, como já estamos em casa não precisas mais de calçar as sandálias.
A sua mãe tem uma grande importância na sua vida.Na minha vida e na minha criatividade, pois ela é um dos seus mais importantes veios, personagem-actriz da vida e da escrita: minha mãe, e mãe-de-água da minha poesia. Figura idealizada e musa, atravessa toda a minha obra, cintilando de luz irisada no meu livro de poesia Minha Mãe Meu Amor.
Quando é que a Maria Teresa começou a escrever poesia?Na minha adolescência, por volta dos 14 anos. Leitora voraz, lia poesia como se quisesse fusionar-me nela. Lembro-me de ler assim Camões, Antero de Quental, António Nobre, Florbela. Cesário Verde foi a leitura obsessiva dos meus 14 anos. Logo depois vieram Camilo Pessanha, Mário de Sá-Carneiro...
De que forma "vive" e escreve poesia e prosa?Com um intenso prazer que o corpo compartilha. Eu sou a minha poesia, ela inventa-me à medida que eu a crio, a vivo e me vivo através dela. Para mim, escrever é voo e sobressalto, incêndio e desmesura. Mas não menos busca e rigor, trabalho de linguagem, no desejo de ir mais longe na busca da correnteza do texto, do cerne do imaginário.
Para si há diferenças entre escrever poesia e prosa?Há diferenças, claro, a prosa requer uma disciplina e uma perseverança que a poesia dispensa, embora, quando escrevo ficção, a poetisa que sou esteja sempre presente, ousando o indizível, demorando o impensável, despertando a beleza, abrindo trilhos, descobrindo atalhos de sombras e luzeiros; no começo de tudo, a atadura das águas. Digamos que ela desperta a cintilação no que está a ser contado pela romancista, coloca luz na sua-minha escuridade, faz voar o seu-meu imaginário. E dizer isto acorda em mim uma súbita e dilacerante saudade, dos últimos anos da escrita do meu romance As Luzes de Leonor.
Como chegou a esse vulto extraordinário que foi a Marquesa de Alorna?Leonor de Almeida, Marquesa de Alorna, é minha quinta avó por parte da minha mãe, que me falou dela era eu muito menina ainda, dando-me a ver um livro que nunca saía de cima da pequena mesa da sua salinha particular, um volume encadernado, com o título A Marquesa D'Alorna, do Marquês D'Ávila e Bolama, contendo várias reproduções, entre as quais um retrato de Leonor pintado na Áustria. Como na biblioteca do meu pai não havia a presença de uma única escritora, esta minha belíssima avó poetisa apareceu-me como uma promessa, o garante da criatividade feminina. Despertando em mim, claro, a maior curiosidade, que se mantém insaciada.
Como conviveu com ela? E diga, por favor, se acha que Leonor de Almeida era "subversiva", como a própria Maria Teresa?Ao longo dos 13 anos e meio da investigação e da escrita de As Luzes de Leonor, a nossa convivência constante foi empolgante, desafiadora e por vezes até perigosa porque fusional: eu procurava-a, perseguia-a, ia no seu encalço, lia os seus poemas, as suas cartas, os seus diários e cadernos. Escutava as suas vozes. Ia em busca das suas fundações e raízes que, afinal, são igualmente as minhas. E se algumas vezes, diante de atitudes, decisões e afirmações suas, me zanguei com ela, acabava sempre por entendê-la ao colocá-la no contexto da época em que viveu. Hoje penso que Leonor de Almeida foi, na realidade, uma mulher muito "subversiva" como diz. Por isso continuamos a vê-la como uma tempestade de luz. Certamente nunca conseguirei tanto.
Acabou de publicar uma antologia de poesia erótica, As Palavras do Corpo. O que é para si o sexo na poesia?Tem a ver com liberdade revolucionária, em termos sociais e políticos, sim, de mudança de mentalidades. Tem a ver com a escrita e também com o corpo, o meu corpo e o corpo do outro/desejado, mas também com o corpo poético. Tem a ver com o corpo feminino das palavras, com o corpo dos meus versos. Mas, sobretudo, tem a ver com sexualidade-prazer e deleite, a que as mulheres e os homens têm direito, livremente assumido, desejo e gozo. Repito: tem a ver com liberdade-livre.
Foi essa luta pela mudança de mentalidades, pela liberdade, que a levou a escrever, com a Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa, as Novas Cartas Portuguesas?Antes disso, e com esse mesmo espírito, escrevi Minha Senhora De Mim. O livro foi apreendido pela PIDE e a Snu Abecassis chamada ao secretário nacional da Informação, Moreira Baptista, que a ameaçou de lhe fechar a editora caso me voltasse a publicar. "Seja que livro for?", indagou ela admirada, e ele explicou com uma metáfora elucidativa: "Se o livro se chamar A História Da Carochinha e estiver assinado pela Maria Teresa Horta, eu fecho-lhe a casa". Por essa altura, a minha vida já tinha virado dos pés à cabeça: fui ameaçada e espancada uma noite, na rua, por três homens que, enquanto me batiam, iam dizendo: "isto é para aprenderes a não escrever como escreves". Havia telefonemas anónimos, cartas e bilhetes não assinados, insultos, convites canalhas, insinuações obscenas.
Com a publicação de Minha Senhora de Mim - e culminando no processo intentado contra a publicação deNovas Cartas Portuguesas - a Maria Teresa foi perseguida pela polícia política e vilipendiada por certas facções. Como conviveu com esse pesadelo?Foi bastante difícil e mesmo assustador, mas nem por um só momento me arrependi de ter escrito e publicadoMinha Senhora de Mim, nem de ter participado no fascinante e empolgante projecto literário Novas Cartas Portuguesas. Para mim, escrever é entrega e exposição. Aliás, escrever foi e será sempre risco."
Fonte: http://ipsilon.publico.pt/livros/entrevista.aspx?id=302028
terça-feira, 10 de abril de 2012
Esboço...
Feminismo, lirismo, erotismo, crítica à sociedade de modo geral, são só algumas das características das obras dessa grande e premiada escritora portuguesa, infelizmente, não muito conhecida pela massa popular!
Abaixo uma breve biografia extraída de sua página oficial!
"A poetisa, escritora e jornalista Maria Teresa Horta (MTH) nasceu em Lisboa, onde frequentou a Faculdade de Letras. Ainda jovem, foi a primeira mulher dirigente cineclubista em Portugal, no ABC Cineclube de Lisboa. Na poesia, estreou-se em 1960 com o título premonitório 'Espelho Inicial', e no ano seguinte foi uma das promotoras da obra colectiva Poesia 61, na qual participou com o caderno 'Tatuagem'. Tendo iniciado a carreira jornalística em 1969 no vespertino "A Capital", com a coordenação do suplemento "Literatura e Arte", publica em 1971 'Minha Senhora de Mim', obra considerada um marco na criação poética feminina em Portugal. Apreendido de imediato pela polícia política da ditadura, o livro esteve na origem de uma campanha de ameaças, insultos e de uma agressão à autora na via pública por três serventuários do regime. O ano seguinte, 1972, é o da publicação, em co-autoria com Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa, das 'Novas Cartas Portuguesas', livro que valeu às escritoras (as Três Marias, como ficaram internacionalmente conhecidas) um processo judicial por "pornografia e ofensas à moral pública", expediente com que o regime de Caetano tentou silenciar uma obra de denúncia do atraso da sociedade portuguesa da altura e, em especial, da situação de profunda discriminação e inferioridade a que a mulher estava sujeita. A forte corrente de solidariedade feminista internacional com as autoras acabou por contribuir para um ainda maior isolamento do regime fascista.Encerrado o processo com uma sentença absolutória já no pós-25 de Abril, MTH fundou então, com Maria Isabel Barreno e outras feministas, o Movimento de Libertação das Mulheres e foi chefe de redacção e dinamizadora da revista "Mulheres" entre 1977 e 1988. Neste período militou no PCP, partido que abandonou em 1990. Entretanto manteve, até aos dias de hoje, uma intensa criação poética e ficcional, tendo, já em 2006, publicado em França 'Les Sorcières – Feiticeiras', edição bilingue da Actes Sud, com tradução de Catherine Dumas. No Brasil, saem em 2007 'Antologia Pessoal + 22 poemas inéditos' (7letras, Rio de Janeiro), 'Palavras Secretas' (antologia da editora Escrituras, Fortaleza) e, em 2009, 'Poemas do Brasil' (Editora Brasiliense, S. Paulo). Em Setembro de 2007 foi convidada a abrir o XXI Encontro dos Professores Brasileiros de Literatura Portuguesa, na Universidade de S. Paulo, tendo ainda apresentado uma comunicação sobre a sua vida e obra no Real Gabinete Português de Leitura, do Rio de Janeiro. Em Setembro de 2009 foi homenageada em Natal, Brasil, no âmbito do IV Seminário Internacional Mulher e Literatura e voltou a apresentar uma comunicação ao XXII Encontro dos Professores Brasileiros de Literatura Portuguesa (ABRAPLIP), em Salvador (Bahia). Maria Teresa Horta é descendente em quinta geração da Marquesa de Alorna, a escritora e poetisa pré-romântica a quem dedicou o romance "As Luzes de Leonor" (2011) e está casada desde 1964 com o jornalista Luís de Barros. Tem um filho, Luís Jorge Horta Barros (casado com Maria Antónia Peças Pereira), e dois netos, o Bernardo e o Tiago."
Fonte: https://www.facebook.com/pages/Maria-Teresa-Horta-P%C3%A1gina-Oficial/163002943815613?sk=info
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